domingo, 27 de setembro de 2009

Oleiros e guardadores de rebanhos 1

Para mim, as formas mais significativas de designar um cristão, que encontro na Bíblia são "barro" e "Ovelha".
Para quem não sabe, o barro não vem embalado em saquinhos de plástico, nem tão pouco cresce nas prateleiras do supermercado.
O barro vem de um lamaçal.
É arrancado à enxada pelo oleiro, com todo o tipo de detritos.
Lixo, raízes, pedras, (aliás, muitas pedras,) areia, terra e o que quer que a área circundante atire para cima dele.
É no meio de tudo isto que está o barro.
Nesta fase, olhando para o local da extracção, compreende-se a palavra de Salmos 40:2.
Depois disso o barro é transportado para uns tanques bem grandes, onde começam a ser retirados os maiores bocados de lixo e pedras maiores.
De seguida vem das melhores partes no processo de transformar aquela massa disforme em barro. A água.

Grandes quantidades de água são derramadas sobre aquilo. É tudo remexido e as partes como a terra e lama são removidos e escoados. Agora, o quase barro está pronto... para descansar.
Após algum tempo é colocada... mais água.
E volta-se a tirar tudo o que ainda não saiu da primeira vez.
Este processo é repetido até que não haja mais restos de terra no barro.

Finalmente chegámos ao barro, mas nesta fase ainda não pode ser transformado em nada, já que o processo mais difícil começa agora.
O oleiro, com o barro bem molhado e escorregadio coloca o barro numa mesa, (não, não é na roda... essa chega mais tarde) e com os punhos e nós dos dedos, amassa o barro e alisa-o.
Esta fase é particularmente dolorosa para o oleiro, porque no processo de esticar o barro, os dedos do oleiro cortam-se permanentemente nas pequenas pedras que o barro guardou. Até porque não são as palmas calejadas que fazem este serviço, são os nós dos dedos, onde a pele é das partes mais sensíveis a lesões, que encontram os defeitos esbarrando neles.
Estes grãos são os mais difíceis de tirar e são aquelas que mais vezes estragam a peça final. Assim, nesta fase, não há nenhum facilitismo por parte do oleiro.
Todos os pequenos grãos de areia têem de ser retirados da massa gelada que é o barro, mas não é só a areia corta. Algo que magoa tanto como as pedras é o frio. E magoa muito também, mas nem o frio consegue parar o sangue que jorra das mãos do oleiro. Cada peça de barro, tem sangue do oleiro.

Raizes, terra, pedras, pedrinhas... tudo removido e o barro está pronto... para descansar novamente.
É amontoado e, sobre ele, coloca-se um pano bem molhado, para que a humidade penetre no barro e este fique pronto a ser trabalhado.
Por vezes aqui, o barro acaba por secar, se o oleiro não regar a cobertura. Caso isto aconteça e o barro seque, fique cheio de feridas e gretas, só há uma coisa a fazer.
Colocar mais água. O barro não pode ser trabalhado sem água.

É agora que o barro pode ir para a roda (se for o caso).
Esta fase também é muito interessante, porque o barro não é colocado gentilmente sobre a roda com uma fita métrica.
Com a roda em andamento, o barro é lançado contra a placa que gira a uma velocidade considerável e tem de ficar exactamente centrada da roda, por muito direitinho que esteja o barro, por muito limpo tenha sido, se não estiver no centro da roda, assim que esta começar a girar com força , vai haver barro por todo o lado... e não se pode trabalhar.
Por isso o barro é removido da roda e novamente lançado até que esteja no ponto certo.
Assim que acontece, o oleiro molha as mãos e com a água forma uma coluna de barro centrada, que gira sob as mãos do oleiro.
Começam a ser criadas as obras.
Do mesmo barro, podem ser feitos cântaros ou vasos de ornamentação. A finalidade pode ser diferente mas a massa é a mesma, por isso, caso alguma peça não fique como o oleiro quer, então basta amassar de novo, com mais água, no barro existente na roda.
Quando as peças são construídas, além das mãos, o oleiro usa panos, pequenas varas (teques), outras ferramentas que sejam necessárias e muita muita água.
Aliás, é impossivel trabalhar o barro na roda com as mãos secas.

Mas à medida que cada peça fica feita, ela é cortada e posta a secar.
Chega o fogo.
A peça, anteriormente um bocado de lixo, fica agora exposta a temperaturas brutais e coze, por dentro e por fora, até que por fim, pode ser posto a uso.
Até passar pelo fogo, barro pouco mais é que água e pó, depois de provado na fornalha, fica disponível para serviço.
(continua)

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